Um blog para mulheres inteligentes e empoderadas pelo conhecimento!

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"Interior com menina que lê". Óleo sobre tela de Henrique Bernardelli.1886.

domingo, 30 de julho de 2017

Orlando - Virginia Woolf

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(São Paulo: Ed. Landamark, 2013)

A mudança de sexo, embora alterasse seu futuro, nada fez para alterar sua identidade. Seu rosto permanecia, como provam os relatos, praticamente o mesmo. (p.67)

Olá meus leitores! Como foram de férias? Recheadas de leituras e aventuras, eu espero né ;) ? Já fazia um tempo que eu estava com vontade de ler Orlando (Orlando: A Biography - 1928), da autora inglesa Virginia Woolf, e nesse mês consegui. Não por ser, eu acho, a única obra que ainda não tinha lido dela, mas porque procurava uma edição que valesse a pena. E essa aqui, da editora Landmark, é bilíngue, então pude ler o texto em português e inglês.

Os críticos em geral dizem que Orlando é a obra que colocou Woolf no patamar de importância literária na Inglaterra, muito mais do que Mrs. Dalloway (meu preferido e publicado em 1925). E entende-se a razão. Orlando é um nobre aristocrata, bem rico, que vive plenamente o período elisabetano, período este caracterizado por ter a rainha Elizabeth I no poder. É o Renascimento inglês, considerado a época de ouro das artes e da economia inglesa (época de Shakespeare e da descoberta do "Novo Mundo"). Pois bem. Orlando possui todas as benesses de um jovem de seu tempo - favores reais, mulheres a seus pés e beleza. Por acreditar que possui tudo, inclusive o amor de todos, ele crê que sua paixão por Sacha, uma nobre russa, tornará sua vida completa. Só não estava contando que a moça só queria se divertir com ele, afinal de contas, para ela era apenas diversão.

A desilusão no amor leva ao descrédito nas pessoas dali em diante, e por isso Orlando resolve se trancar para sempre em sua mansão no campo. Resolve também terminar de escrever seu poema "O Carvalho", pois como um bom aristocrata Orlando amava a poesia e queria também ser reconhecido por sua inteligência e louvor às artes. Ele pede que o poeta Nicholas Greene, considerado "o gênio", leia seu manuscrito, porém este escreve uma sátira ridicularizando a figura de Orlando e banalizando a pretensão do jovem de ser reconhecido como um bom poeta. Então, totalmente arrasado, Orlando aceita ser embaixador em Constantinopla, e é lá que se opera a coisa mais fantástica da história: ele dorme por sete dias, como se entrasse em um estado de coma, e após acordar descobre que seu sexo mudou - Orlando era agora uma mulher!

Como seria sua vida dali pra frente? Mudaria sua essência, seu modo de pensar, já que seu sexo mudou? Orlando, o romance, é filho do século XX pois coloca em discussão a importância da mulher na sociedade, questionando essa figura tão subestimada. Mas não somente isto. A narrativa de Woolf é irônica, obriga o leitor a participar do discurso, e o narrador da história se apresenta como biógrafo da vida de Orlando dizendo que sabe tudo mas ao mesmo tempo fica se explicando por não conhecer detalhes ou razões para as atitudes do rapaz. É um biógrafo fajuto, que ao invés de afirmar, duvida. 

E muito mais o romance Orlando nos ensina, principalmente aos profissionais da área de Letras: o tempo todo o narrador paga um lindo tributo à importância da arte e da poesia no mundo; muitas vezes o narrador dá uma lição de história de literatura inglesa e de crítica literária também, o que torna o romance quase que uma metaficção.

Imagino as dúvidas que devem ter dilacerado a mente brilhante da autora ao decidir abordar, sendo mulher, temas tão difíceis para as primeiras décadas do século XX. E olha que ela era até bem aceita nos círculos intelectuais londrinos - e tinha total apoio do marido, Leonard Woolf, para se entregar à escrita. Ele era seu editor e ela confiava completamente nele. É por isso que adoro tanto os romances e os pensamentos de Virginia Woolf: eles revelam  a mulher que só agora, em pleno século XXI, estamos conseguindo enxergar - como um ser humano.

Sobre a natureza da poesia em si, Orlando só descobriu que era mais difícil de vender que a prosa, e embora os versos fossem mais curtos, levavam mais tempo para serem escritos. (p. 44)


domingo, 9 de julho de 2017

Cazuza - Viriato Correa. Resenha crítica de *Caio Carvalho.

Download Cazuza  - Viriato Correa    em ePUB mobi e pdf

- Pergunta você o que é o Brasil? É tudo que temos feito em prol do progresso, da moral, da cultura, da liberdade e da fraternidade. O Brasil não é o solo, o mar, o céu que tanto cantamos. É a história de que não fazemos caso nenhum.(p.185)

Neste texto, objetivamos levantar uma análise crítica a respeito da clássica obra Cazuza (1938) do aclamado escritor maranhense Viriato Correa. A trama nos traz a história do garoto que dá nome ao livro. Em um tom memorialístico ele nos conta a sua infância em uma narrativa dividida em três partes, nas quais são alterados os personagens, o espaço e até a temática expressa. Seguindo uma ordem cronológica, a infância do menino é situada no livro, agregando a isso sua perspectiva diante do que ele presencia.

Ao ler Cazuza, é impossível caracterizá-lo como um livro homogêneo referente à sua temática, pois a diversidade de traços que compõe o estilo do autor, atrelado ao imaginário da época é gritante. Dessa forma, pontuamos na obra uma reflexão específica: o patriotismo. O narrador nos traz, especialmente na parte 3, um relato do desejo que ele tem de que o brasileiro assuma sua verdadeira identidade, fazendo uma crítica aos que cantam a brasilidade de uma forma equivocada e contida, ao passo que defende que ela é muito mais que isso.

A culpa não é de vocês, é de quem lhes ensina noções falsas. Para muita gente, patriotismo é elogiar as nossas coisas mesmo quando elas não merecem elogios. É um erro. O verdadeiro patriotismo é aquele que reconhece as coisas ruins do seu país e trabalha para melhorá-las. (p.209)

A Literatura é um dos mecanismos de maior influência quando se quer valorizar a pátria. Na tese Literatura como Missão (1981), de Nicolau Sevcenko, o autor coloca a Literatura como uma forte arma que ajuda o leitor a refletir sobre os eixos sociais que compõem o contexto em que o indivíduo está inserido. Para Sevcenko, o texto literário é um documento de ação político-social, que denuncia as mazelas vividas e sugere possíveis correções.

Viriato Correa usa e abusa desse cunho social que a Literatura possui pois nos faz refletir sobre a forma com que o brasileiro percebia sua pátria e como esse brasileiro ensinava suas crianças.  O forte tom crítico do protagonista faz o leitor enxergar o patriotismo menos da perspectiva natural e mais do cunho identitário que os próprios brasileiros lutaram para que seu país possuísse.

Para além da questão patriótica, o livro retrata fielmente a cultura maranhense, além de nos fazer refletir a respeito do ensino formal nas escolas da época, do preconceito e desvalorização com a gente pobre - questões altamente sociais. Com uma linguagem concisa e diálogos rápidos, o leitor consegue devorar as 229 pág. bem rápido! Lembremos que acima de tudo, a leitura de Cazuza demonstra que Literatura não é apenas deleite; Literatura também é denúncia.

*Caio Carvalho é aluno do curso de Letras/Português da Universidade Estadual do Maranhão - UEMA, Campus Timon (MA).

domingo, 2 de julho de 2017

Wicked - Gregory Maguire

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(São Paulo: Ed.Leya, 2016)

A feitiçaria [...] não rasga, ela remenda. É síntese, em vez de análise. Gera o novo em vez de revelar o antigo. Nas mãos de alguém verdadeiramente qualificado [...] é Arte." (p.182)

Olá meus leitores, tudo bom? Depois de um mês festivo como junho (pelo menos pra nós aqui do Nordeste é assim!), ufa! chegamos em julho, mês de férias! E isso significa colocar o lazer em primeiro lugar, isto é, a leitura, né? Bom, vamos à uma gostosa indicação que serve pra todas as idades, especialmente os adolescentes!

Wicked (malvada/o em inglês) narra a história da vida cheia de preconceitos e dificuldades de Elfaba, antes de se tornar a famosa Bruxa Má do Oeste da terra encantada de Oz. Desde criança a moça tem que lidar com olhares desconfiados por conta de sua aparência meio sinistra: cor da pele esverdeada e uma magreza extrema contrastando com belos olhos e cabelos negros e sedosos. Seu pai, Frex, um pastor que prega o monoteísmo, gosta de exibi-la a seus fiéis seguidores como prova da misericórdia de Deus, já que em nenhum momento Elfaba demonstra ter má índole. Sua mãe, Melena, rejeita-a constantemente. 

Crescendo no ambiente pobre, rural e pantanoso da província de Quadling, sendo negligenciada por seus pais e seus dois irmãos, Nessarose e Casco, Elfaba se volta para a leitura - seu único prazer é adquirir mais e mais conhecimento. Assim ela chega à universidade e o destino faz com que divida o mesmo quarto com a burguesa Glinda, que mais tarde se tornará a Bruxa Boa do Norte. Apesar das diferenças profundas as duas se tornam amigas: Elfaba segue acreditando que sua essência é má, sempre questionando qual sua verdadeira missão. Já Glinda segue afirmando que a feitiçaria pode ajudar a trazer o bem a Oz, salvando o país das tiranias comandadas pelo famoso mágico.

Mas muitas coisas acontecem não só a Elfaba como a seus amigos, após os anos da universidade: eles aprendem que os atos tem consequências. Cada um tem seus ideais de vida colocados à prova, para testar se suas essências são de fato más ou boas. À medida que Elfaba, Glinda, Boq, Fiyero e Nessa assumem responsabilidades e dão um direcionamento a seus destinos, suas personalidades também se delineiam. E suas identidades se formatam em figuras de bruxas e homens da elite de Oz.

A temática principal da obra gira em torno dos conceitos de bem e mal, principalmente deste último, assim como as suas respectivas personificações. Wicked demonstra de forma crua como algumas facetas do mal se apresentam na sociedade: na escravização de mentes, na imposição de ideologias tirânicas, na hipocrisia e no silêncio condescendente que apóia o governo ilegítimo do mágico de Oz.

É lógico que eu sugiro que você leia logo em seguida (ou antes mesmo) o clássico da literatura infantil e juvenil O maravilhoso mágico de Oz (1900) do norte-americano L.Frank Baum: todos os elementos que estão nesta obra reaparecem em Wicked, como a menina Dorothy, seu cachorrinho Totó e os amigos que ela faz em Oz: o homem de lata, o espantalho e o leão covarde. Ah! E vocês entenderão finalmente, assim como eu, a razão de os famosos sapatos prateados serem encantados! Garanto que a leitura será de fato maravilhosa!

"[...] Ou o mundo simplesmente se descortina aos seus olhos, repetidas vezes, assim que você está pronto para vê-lo de maneira diferente?" (p.255)



domingo, 18 de junho de 2017

No alto da ladeira de pedra - Carvalho Jr.

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(São Paulo: Patuá, 2017)

"cadeira, óculos, agulha...

no alto da ladeira de pedra,
vô Quirola remenda
as redes de pesca. [...]" (p.51)

Olá leitores! Hoje é dia de poesia, meu assunto preferido...Chegou-me às mãos ainda em maio deste ano a obra poética do jovem autor caxiense Francisco de Assis Carvalho da Silva Jr - ou simplesmente Carvalho Jr., cidadão de Caxias - MA. O poeta é bastante conhecido por aqui e já possui um reconhecimento merecido para além da região dos Cocais, o que não me surpreende, uma vez que seus versos tem qualidade. E ter qualidade na arte poética não é apenas escrever poemas que falem ao coração. É ter riqueza de linguagem. É ter coragem de expressão. É saber ser significativo hoje e sempre. E Carvalho Jr. pode se gabar de reunir esses adereços.

O livro em si, enquanto objeto-poético, é bem convidativo: o layout e a disposição interna dos poemas, bem como a escolha das epígrafes na abertura de cada uma das partes do livro salta aos olhos. É gostoso de ver, e depois a leitura torna-se mais prazerosa ainda.

Quanto à temática, eu dividiria esta obra em dois momentos: primeiro temos poemas que nos ligam à infância, ao corpo-erótico, à solidão. Porque se conhecer e (re)conhecer sua essência é necessário; o medo e o silêncio são latentes, mas a coragem de viver é maior:

"teu nome é uma tejubina - libélula - borboleta
que dança os meus arco-íris da infância
nas armadilhas e incêndios de uma bolha de sabão." (p.30)

Em um segundo momento, o "índio fantasma da tribo Quirola" (que é como se define o eu poético) nos mostra um espaço muito bem traçado, com elementos que se voltam para a memória da cidade, com a denúncia recorrente de sua decadência e o descaso de seus habitantes; temos também o rio que perpassa tudo e todos e que, juntamente com o povo, tenta resistir às violências do cotidiano. É sempre interessante ler poetas que nunca se esquecem de sua função social. Porque a palavra bem dita tem força; ela se espalha e não se perde: 

"passa o rio como um cachorro magro...
tudo que bebe são assobios de socós
e a seca indiferença dos bocós." (p.39)

Finalizo por aqui, me permitindo dizer o que eu mais gosto nos poemas de Carvalho Jr.: é o uso da explosão de cores e de neologismos com que ele burila a palavra; sua concisão e ironia me agradam muito. Abusar da linguagem assim é um exercício que requer prática para não parecer óbvio. Porque, na verdade, como disse o poeta francês moderno Paul Valéry, o poema é uma espécie de máquina de produzir o estado poético através das palavras, muito embora não saibamos o efeito da ação dessa máquina a longo prazo em nossos espíritos. O efeito dessa "máquina" em mim hoje é de êxtase e de contemplação. Só posso me emocionar com o que é verdadeiro para meus olhos:

"pare,
olhe,
escute:
nem o trem
nem a fome 
do mundo
passaram 
ainda."(p.27)


sexta-feira, 2 de junho de 2017

Ainda estou aqui - Marcelo Rubens Paiva

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(Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 2015)

Tentava, a todo custo, ser tratada não como uma doente, uma demente, mas como um ser igual a todo mundo, que, com a idade, é traído pela memória, fica velho, fica esquecido, fica esclerosado, velhinha.(p.27)

Olá meus leitores da vida, tudo bom? Vamos a mais uma resenha de uma ótima leitura! Ainda estou aqui (2015), romance do Marcelo Rubens Paiva, vocês podem adquirir sem medo aqui.

Por meio de um relato bem memorialista porém marcado pela objetividade de fatos verídicos, em que ficção e compromisso com a verdade se entrelaçam fortemente, o narrador tem como ponto de partida a descoberta de que sua mãe possui mal de Alzheimer. Por iniciativa própria, ele aceita ser seu tutor e, consequentemente, questiona como uma mulher como Eunice Paiva em breve não se lembrará mais de sua vida. 

E que vida, hein? Poucas pessoas podem se gabar de terem chegado aos 77 anos de forma tão ativa quanto Eunice, que teve que se reinventar aos 41 anos, com 5 filhos pra criar, no auge da década de 1970 e do regime militar; que teve que aceitar que o suposto desaparecimento do marido Rubens Paiva, engenheiro e ex-deputado federal, na verdade, foi um assassinato perpetrado por torturadores do DOI.

 A revolta transmutou-se em uma luta na persistência de existir: a moça de ascendência italiana e que adorava ler, formada em Letras, resolveu fazer faculdade de Direito e refazer a vida, triste por dentro mas alegre por fora. Terminou de criar os filhos, driblou as questões burocráticas legais por não conseguir provar sua viuvez - já que o corpo de Rubens nunca foi encontrado, abraçou a causa do Direito Indígena nos anos 1980...ufa! Tem mais, muito mais.

Histórias como a de Eunice devem ser lidas para que nos lembremos que uma vida inteira ainda é pouco pra quem quer realizar tanto. Histórias que tem como pano de fundo o período negro do regime militar no Brasil devem ser resgatadas e discutidas sempre que possível, já que somos, em grande parte, um país sem memória, tanto para fatos longínquos quanto para os fatos recentes. Também pudera. Quem nos educou de fato nos ensinou a pensar, a lutar? Quem nos educou nos deu o conhecimento das verdades não-oficiais? Um pessoa sem memória a gente aceita, pois a doença é algo involuntário. O que não se aceita mesmo é um país sem memória; sem olhos para o passado.

Assim era o Brasil da ditadura: o órgão que deveria defender os índios defendia os fazendeiros que invadiam as terras indígenas; a polícia federal, que deveria defender o direito do cidadão, defendia o Estado e o poder, que se sentia ameaçado pelo cidadão. (p.205)

sábado, 20 de maio de 2017

3 obras literárias que viraram ótimas adaptações cinematográficas

Olá meus amores-leitores da vida!!! Tudo bom com vocês neste mês de maio? Espero que sim!!! Na última segunda-feira (15/05/2017) saiu nossa participação no canal Cinetê, do querido youtuber Renan Ferreira - fizemos lá um gostoso bate-papo sobre literatura e a sétima arte. Indicamos 3 obras literárias que tiveram ótimas adaptações cinematográficas, vocês sabem que amo cinema né?


O filme "O vestido" tem a história baseada no poema "Caso do vestido" de Carlos Drummond de Andrade. Uma esposa é totalmente apaixonada pelo marido e acredita firme e forte no poder do amor e do casamento...até a chegada de uma "mulher do demo" que vem de fora e enfeitiça o marido da outra, usando um belo vestido. O que acontece no final? Leia o poema e depois assista o filme ;) 





O filme "Moça com brinco de pérola" é baseado no romance homônimo da autora norte-americana Tracy Chevalier. Olha o trailer aqui:




Por último mas não menos importante o meu preferido da vida! O filme "As horas" é baseado no enredo do romance também homônimo do autor norte-americano Michael Cunningham, que inclusive ganhou o maior prêmio literário dos EUA por essa obra em 1999, o prêmio Pulitzer. Olha o trailer do filme aqui:



Com exceção do Drummond, claro, os outros 2 autores ainda estão na ativa ;) Já assistiu ou já leu essas obras que indiquei? Comenta aqui no blog! P.S: meus ex alunos de Literatura de Língua Inglesa com certeza já fizeram um dos dois rsss....

quarta-feira, 26 de abril de 2017

"Você gosta de poesia?" - Sobre a Poesia Marginal ou a Geração Mimeógrafo



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Você gosta de poesia? Se sim, deixe de lado seus pré conceitos sobre poesia, principalmente sobre poesia marginal. Não, ela não foi produzida por um bando de loucos sem rumo, sem eira nem beira, que só queriam bagunçar o cenário intelectual arrumadinho nos idos das décadas de 1960,1970 e começo de 1980. Não, eles não eram alienados. Eles queriam bagunçar, mas também queriam espaço e voz que não eram dados a quem queria uma terceira opção de expressão.

Em um contexto social complexamente bipolar, bipartidário, unilateral e pouco plural, dominado por frases de efeito como “ordem e progresso”, “ame-o ou deixe-o”, em que ou você era conservador e a favor do país e da família ou era comunista e guerrilheiro, contra a moral, os poetas marginais propunham novas experiências literárias; novas vivências; um novo caminho de existência, talvez, um caminho do meio no meio de poucas opções de ser.


O ser humano precisa de mais do que isso pra viver. A poesia é de todos, para todos. É um momento de comunhão de emoções, de doação de sentimentos variados, que não se limita a um pedaço de papel ou a um reconhecimento acadêmico. A poesia transborda do papel para virar música – pois um dia era lira e aqui volta a seu estado original; a poesia transborda em gestos e olhares com o público, pois qual o motivo de poetar sem ter alguém pra dialogar? Serei eu um poeta? Qualquer um pode ser poeta, produzir poesia, a palavra é minha, por que não? Por isso a pergunta é tão simples e ao mesmo tempo tão urgente: você gosta de poesia?

Apresento-lhes então Torquato Neto, Waly Salomão, Ana Cristina César, Cacaso, Chacal, Charles, Afonso Henriques Neto, Francisco Alvim, Paulo Leminsky. Marginais porque plurais; marginais porque espontâneos; marginais porque a literatura, na verdade, precisa de aventura e de loucura. Marginais porque a poesia não precisa de aprovação de um grupo seleto pra acontecer. O povo é onde minha poesia acontece. Ser poeta é ter atitude. O mundo é grande e minha poesia não se limita ao céu.

DEVENIR, DEVIR (WALY SALOMÃO)

Término de leitura
de um livro de poemas
não pode ser o ponto final.

Também não pode ser
a pacatez burguesa do
ponto seguimento.

Meta desejável:
alcançar o
ponto de ebulição.

Morro e transformo-me.

Leitor, eu te reproponho
a legenda de Goethe:
Morre e devém

Morre e transforma-te.   


Temos um grupo de performance em que fazemos intervenção poética: ler poemas para causar espanto e reflexão. Porque poesia é isso. É o nosso instante. E é o bastante.